Eu vi o Mundo

EU VI O MUNDO… ELE COMEÇAVA NO RECIFE
A celebração de um novo milênio (1999/2000)

Arte é para todo mundo ver
por Maria Elizabeth França Araruna – arquiteta, designer, produtora cultural , sócio-curadora da ArtBA Espaço Contemporâneo, Recife Brasil

Digo sempre que tenho uma sorte imensa em conviver com pessoas extraordinárias.
Radha Abramo, uma senhora suave e criativa que me ensinou não só sobre arte, mas também sobre a vida, é uma dessas pessoas com quem
tive a sorte de dividir meu trabalho e minha existência e autora da frase que dá título a este texto.
Quando a convidei para ser curadora do projeto “Eu vi o mundo… Ele começava no Recife”, intervenção cultural e urbanística no centro da capital
pernambucana comemorativa da passagem para o novo milênio e parte das celebrações dos 500 Anos do Descobrimento, não imaginava então toda a grandiosidade dessa mulher.
A intervenção física na Praça Rio Branco, popularmente chamada de Marco Zero por ser o ponto a partir do qual todas as distâncias do Recife são medidas, implicava em sua ampliação, com a inserção de um enorme painel de Cícero Dias, intitulado “Rosa-dos-ventos”, no piso de sete mil metros quadrados da praça e a instalação de uma série de esculturas monumentais de Francisco Brennand sobre o molhe de arrecifes naturais, destacando-se uma torre intitulada “Coluna de Cristal”.

O PROJETO “EU VI O MUNDO…”, CUJO TÍTULO FOI INSPIRADO NO PAINEL HOMÔNIMO DE CÍCERO DIAS, FOI UMA DAS MAIORES INTERVENÇÕES URBANAS FEITAS NO QUE É CHAMADO DE RECIFE ANTIGO. PROPOSTO PELA MULTI CONSULTORIA – EMPRESA DA QUAL PARTICIPAVAM O EX-PREFEITO E EX-GOVERNADOR GUSTAVO KRAUSE E O ARQUITETO PAULO ROBERTO DE BARROS E SILVA – TEVE PROJETO ARQUITETÔNICO DE UM DOS MAIS RENOMADOS ARQUITETOS PERNAMBUCANOS, REGINALDO ESTEVES, CONSULTORIA HISTÓRICA DO ARQUITETO FERNANDO BORBA E MINHA PARTICIPAÇÃO COMO CONSULTORA CULTURAL E, POSTERIORMENTE, COMO CURADORIA ADJUNTA. AO VISLUMBRAR A GRANDIOSIDADE DO PROJETO, MINHA ESCOLHA IMEDIATA FOI RADHA ABRAMO PARA OCUPAR A FUNÇÃO DE CURADORA E TRATEI DE CONVIDÁ-LA PESSOALMENTE.
NA ÉPOCA COM 82 ANOS E DONA DE UM CONHECIMENTO DE BOA PARTE DO PLANETA, RADHA NOS IMPRESSIONAVA POR SEUS MÚLTIPLOS SABERES: ESTUDOU FILOSOFIA, ESTÉTICA, HISTÓRIA, ARTES PLÁSTICAS, COMUNICAÇÃO E SOCIOLOGIA POLÍTICA.

Professora, jornalista e especialista em arte pública desde a década de setenta, Radha Abramo encontrou, ao longo de sua trajetória profissional,
diferentes maneiras de levar a arte e a cultura para o grande público.
Seus conceitos referentes à arte pública e à arte pernambucana, sobre Cícero Dias e sobre Francisco Brennand, fortaleceram e ampliaram os meus próprios conceitos sobre as perspectivas para o novo milênio que chegava e sobre aquele projeto em que trabalhávamos e que tanto mexeu com a vida cultural da cidade.
Em sua opinião, a Arte Pública é uma tendência da arte contemporânea, nascida da constatação de “que a arte foi feita para existir na vida comum das pessoas. Nas ruas, nos parques, nos jardins públicos. Porque as casas fi caram muito pequenas, e aquele velho gosto de colecionar não é mais possível para uma grande parte da população”.
Para ela, a multiplicidade das reproduções não constituía qualquer problema, muito pelo contrário, já percebendo no fi nal do século passado a
importância da Internet para os dias de hoje, traduzindo, em uma entrevista concedida ao jornalista Fábio Lucas, sua opinião de forma criativa dizendo que a gravura e a arte pública eram “duas jovens senhoras que vão varar este século. A gravura é a mais honesta, porque é a multiplicação. A gravura é feita para ser multiplicada, para ser de todo mundo. E a arte pública já é de todo mundo”.
Em sua percepção, a diminuição da venda das obras de arte era um refl exo dos tempos atuais, onde os objetos de uso – como, por exemplo, o automóvel – substituem os objetos destinados a serem simplesmente contemplados. Mas a necessidade de sentir a arte persiste. E é aí, em sua opinião, que a arte pública tem sua importância.
Naquela mesma entrevista ela exprime esse conceito dizendo que “no lugar de comprar um carro, a pessoa podia comprar um quadro. Mas não compra mais.
Porque você pode ver a arte na rua, e o ser humano continua precisando disso. Precisa daquele momento em que pare e diga, “que coisa horrorosa” ou “que coisa linda”. Porque esse é o momento em que as pessoas se sentem como seres humanos.
“Eu estou pensando, eu estou sentindo. Não sou alguma coisa dessa máquina infernal aí. Estou existindo enquanto eu mesmo, porque estou sentindo alguma coisa.”
Radha, durante sua participação no projeto “Eu vi o mundo…”, nos fez ver ainda melhor a importância de tudo aquilo que estávamos construindo, ampliando a nossa percepção sobre os artistas pernambucanos que, mesmo sendo por nós extremamente conhecidos, passaram a ter sua expressão plástica e sua importância cultural ainda melhor compreendida.
Consciente da seriedade da intervenção cultural e urbana que estávamos realizando, Radha, que por duas vezes viveu fora do Brasil, sentiu em nosso projeto uma maneira de dar uma resposta inteligente e culta aos preconceitos sobre a arte brasileira, ou, em suas palavras, sentia “uma vontade de devolver o preconceito, não porque tenham me atingido, mas porque atingiram outras pessoas. O Brasil não é “um país lá”, como dizem na França. Quando o projeto estiver pronto, vou fi car muito feliz.
É como se tirasse uma forra. Vamos mostrar para o mundo “o país lá” que tem a obra fantástica do Brennand, do Cícero Dias”.

Com sua larga visão da História, Radha nos ensinou que estávamos construindo, na verdade, uma galeria de arte em pleno mar, uma ideia que ela achava muito bonita e que, com a Rosa-dos-ventos de Cícero Dias situada no centro da Praça do Marco Zero, seria um local próximo, senão igual à Place de La Concorde, em Paris.
A certeza de Radha Abramo, de que naquele momento tudo aquilo que estávamos fazendo era muito novo para a maioria das pessoas, mas que quando tudo estivesse pronto aquele novo espaço público de arte seria absorvido naturalmente pela população, não era sem razão.
Sua premonição, fruto da sua experiência e sabedoria, foi comprovada pelo tempo.
Doze anos depois, a reorganização do espaço urbano proposta pelo projeto “Eu vi o mundo…” foi absorvida de tal forma pelo público da capital pernambucana que se tornou o grande espaço cívico e cultural da cidade do Recife.
Para nós, que tivemos a oportunidade de conviver, aprender e apreciar toda a sua capacidade e inteligência, só nos resta dizer “Obrigada Radha, por sua colaboração, por sua simplicidade e por sua magnitude”.

Veículo IV